Amanda Areias

Programadora e designer gráfica por profissão, viajante por paixão e feminista por necessidade.​

Mochileira desde os 17 anos, sempre em busca de lugares, culturas e pessoas novas.

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Como criar um projeto social

August 1, 2019

 

 

Acredito que todo mundo tem algo para compartilhar, ensinar ou passar para frente com o potencial de mudar a vida de pessoas. Seja tocar um instrumento, algum esporte, habilidade ou, no meu caso, um idioma. Comecei a estudar inglês fora da escola muito nova, antes dos 10 anos - tive a sorte de nascer em uma família que reconhecia a importância do idioma e, falo isso com toda certeza do mundo, minha vida seria completamente diferente se não fosse pelo inglês, que me abriu muitas portas. Reconhecer isso é o primeiro passo para querer compartilhar esse conhecimento, e foi dessa vontade que nasceu o Voice.

Em 2016 eu dava aula de português para refugiados na Adus, mas acabei precisando sair de lá e decidi então começar o meu próprio projeto, o Voice - inglês Para Elas, curso de inglês gratuito voltado para mulheres cis e trans, que acontece aos domingo na Paraisópolis. Vejo um interesse muito legal de outras pessoas querendo fazer algo parecido então decidi compartilhar com vocês o passo-a-passo que eu segui para criar esse projeto que, há dois anos e meio, vem trazendo oportunidades para mulheres da Paraisópolis e de outras regiões de São Paulo. Então, se você tem interesse de começar algo parecido, aqui estão os passos a tomar:

 

 

1. Decidir qual é o seu foco

 

O que você quer passar adiante? Qual habilidade você tem que acredita que poderia ajudar outras pessoas? Por que você acredita que outras pessoas se beneficiariam com isso? Quem você pode ajudar? Qual seria o seu público? Amadureça bem a idéia na sua cabeça antes de começar qualquer coisa - converse com pessoas, peça sugestões, idéias, críticas, etc. (mas cuidado para não ficar muito tempo amadurecendo a idéia e não colocá-la em prática).

 

 

2. Juntar gente pra fazer acontecer

 

Não tente fazer tudo sozinho, o mundo está cheio de gente disposta a ajudar: encontre essas pessoas. Mande mensagem pra quem você acha que toparia entrar nessa contigo, poste nas redes sociais, em grupos de facebook, no whatsapp da família. Você vai se surpreender com a quantidade de gente querendo ajudar - e com a diferença que isso vai fazer no final das contas. Eu, especificamente, postei em vários grupos feministas de facebook e em grupos de whatsapp de amigos - expliquei a minha ideia e perguntei quem toparia me ajudar nessa empreitada. Com todas as pessoas reunidas fiz um grupo no facebook e fomos discutindo os próximos passos e detalhes a partir de então. (é óbvio que grande parte das pessoas que animaram no começo nunca mais me responderam depois, mas faz parte, foca nas que realmente estão animadas)

 

 

3. Arrumar um lugar para o projeto acontecer

 

Essa parte foi a que imaginei ser a mais difícil. Tínhamos a idéia na cabeça mas não tínhamos um dos pontos mais importantes: onde fazê-la acontecer. Lembrei que há alguns anos atrás tinha ido conhecer um projeto social na favela perto de casa, que tinha o espaço de uma escola e era perfeito para o que eu queria fazer. Então fui lá bater na porta. Me apresentei, conversei com a diretora, expliquei minha idéia, o planejamento, o conceito do meu projeto. Expliquei que as aulas aconteceriam aos domingos - dia em que essa escola está fechada - e perguntei se era possível nós utilizarmos o espaço deles durante esses dias. Ela, após conversar com o restante da equipe - me confirmou que poderíamos dar as aulas no espaço deles. Não sei se foi sorte de ter encontrado esse lugar maravilhoso de primeira ou se as pessoas realmente estão dispostas a ajudar (acredito mais na segunda opção) mas desde seu primeiro dia as aulas do Voice acontecem no Projeto Viver e, graça a ajuda deles, temos o espaço perfeito para acomodar todas as mulheres.

Um ponto importante na hora de ir atrás de um lugar é: escolha um espaço que esteja situado no mesmo ambiente que as pessoas que você vai atender. Ou seja, se o seu projeto vai atender a favela: não o realize fora da favela.

 

 

4. Escolher as datas

Marque no calendário a data que você gostaria de começar o projeto e faça o máximo para que realmente aconteça - mesmo que não esteja tudo 100% resolvido ainda, resolva o essencial que o resto vai se ajeitando aos poucos.

 

 

5. Pagar as contas 

Faça uma tabela com todos os seus possíveis gastos, e pense numa forma de conseguir esse dinheiro. No Voice, todo começo de semestre a gente faz uma vaquinha online e sai divulgando o link pra todo mundo que a gente conhece. Não temos nenhum gasto absurdo (o maior é a impressão das apostilas - que são desenvolvidas e distribuídas por nós - e a partir desse semestre vamos começar a pagar o transporte de algumas das mulheres) e todo semestre conseguimos mais do que precisamos - o que acaba nos possibilitando desenvolver algumas outras atividades/campanhas durante o semestre.

Outra opção também é tentar um patrocínio, como não temos nenhum tipo de parceria com empresas privadas no Voice, não tenho experiência para falar sobre isso. Mas caso o seu projeto precise de mais dinheiro, eu pesquisaria empresas que teriam interesse e faria uma apresentação mais organizada para elas sobre o projeto.

 

 

6. Divulgar

 

A divulgação é uma das partes mais importantes, afinal, não serve de nada planejar um super projeto, se no final ninguém se inscreve. Então, conversa com aquela amigo seu que manja de photoshop e pede pra ele fazer um banner bem simplesinho com as informações principais. É importante não ter muito texto no banner e deixar em letras bem garrafais a proposta principal e a palavra ‘GRÁTIS’, se possível. E sai divulgando esse banner em tudo quanto é canto. Os lugares que nós mais vimos resultado em divulgar foram: 1. Grupos de facebook do lugar onde o projeto vai acontecer (no nosso caso, postamos nos grupos que encontramos da Paraisópolis) e 2. Fizemos uma pesquisa de várias ONGs da região e mandamos mensagens/inbox/emails/directs para eles explicando sobre o projeto, enviando o banner e pedindo pra eles divulgarem pras pessoas que eles atendem. Também enviamos os banner pra amigos, familiares, postamos nas redes sociais, etc. 

É engraçado fazer essa divulgação pela primeira vez pois não temos nem idéia de quantas pessoas vão se inscrever - pode ser 3 pode ser 300 - e, do segundo semestre pra frente, continuamos fazendo esse tipo de divulgação mas a que mais nos traz resultado, sem dúvidas, é o boca-a-boca das nossas alunas, que contam sobre as aulas pra amigas, tias, sobrinhas, irmãs e várias vêm se inscrever. Hoje em dia não precisamos mais fazer um mutirão de divulgação pois o próprio projeto já atrai muita gente por si só, mas nos primeiros semestres era uma das áreas que mais trabalhávamos.

 

 

7. Começar

 

Tudo pronto? Planejado? Lugar escolhido? Divulgação feita? Equipe montada? Data pra começar escolhida? Então agora é “só” começar. Não espere a data ‘perfeita’ pra começar, começa mesmo que as coisas não estejam 100% arranjadas ainda, você vai mudar muita coisa ao longo do tempo e vai, aos poucos, moldando o projeto para que ele se torne um dia tudo o que você imaginava.

 

 

Olha, vou te ser sincera: não vai ser um trabalho fácil, vai te trazer dor de cabeça, preocupações, vai tomar seu tempo. Mas, sem sombra de dúvidas, vai ser uma das coisas mais gratificantes que você vai ter feito na vida.  O Voice já ajudou mulheres a gabaritarem o Enem, a conseguirem empregos, a serem promovidas, a se empoderarem, a ganharem confiança, a ensinarem inglês pros filhos. A gente já fez oficina de finanças pra mulheres, já fez campanha fotográfica pra elas, já levou refugiados africanos que não falam português para passar o dia com elas. A gente apareceu no Encontro com a Fátima, demos entrevista ao vivo na televisão pra Bandeirantes, falamos no podcast da Rádio Globo e contamos nossa história na Capricho, Catraca Livre, Portal IG e Revista Galileu. Todo novo semestre as inscrições terminam em um dia e com uma fila de espera que, se fosse física, daria a volta em vários quarteirões. E começamos assim: pequeno, mas com uma vontade enorme de fazer essa idéia sair do papel.

 

Quero aproveitar a publicação pra agradecer imensamente todas as pessoas que se jogaram nessa idéia maluca comigo e que estão levando ela pra frente agora que eu estou longe. Tenho muito orgulho de todo o trabalho que vocês estão fazendo. Obrigada obrigada obrigada.

 

 

 

 

 

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