Amanda Areias

Programadora e designer gráfica por profissão, viajante por paixão e feminista por necessidade.​

Mochileira desde os 17 anos, sempre em busca de lugares, culturas e pessoas novas.

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Norte da Etiópia - Lalibela, Tigray Churches e Danakil Depression

March 1, 2018

Como mostrei em Minha Viagem Pela África - Roteiro & Gastos, a minha primeira semana na Etiópia foi destinada ao norte do país. Como a estrutura da Etiópia para o turismo não é das melhores, e eu não me senti a vontade para fazer essa parte sozinha, fiz algo que muito raramente faço: fechei essa parte do roteiro com uma agência de turismo. E eu sinceramente recomendo que quem vá, faça o mesmo - não por conta de segurança (me senti super segura o tempo todo), mas pela falta de estrutura turística. Não é fácil se locomover de um local ao outro e dependendo do lugar não é possível chegar sozinho.

Fechei a minha primeira semana com a  ETT, que é uma das agências mais conhecidas do país, o preço não difere muito das outras e eles foram super profissionais e atenciosos do começo ao fim. Reservaram os meus voos, disponibilizaram motorista para as partes onde não era possível fazer de avião, reservaram hotéis muito melhores do que eu esperava e também contrataram guias muito bons. Segue os locais pelos quais passei e o roteiro que eles fizeram para mim:

 

 

LALIBELA

 

É em Lalibela, no norte da Etiópia, que estão as "famosas" igrejas escavadas no chão. "Famosas" assim entre aspas mesmo, já que só o são para quem tem um conhecimento mínimo sobre o país; para o restante do mundo elas são completamente desconhecidas, o que é uma pena, pois o local pode ser facilmente igualado à algumas das Sete Maravilhas do Mundo.

O complexo contém 11 igrejas, construídas no século XII e são todas escavadas de cima para baixo. Os trabalhadores começavam escavando e separando a rocha que seria a futura igreja do restante do solo, deixando apenas um enorme bloco monolítico de rocha. Depois, eram feitas as fachadas, dando forma as edificações por fora. Em seguida era criado o espaço interior: as salas, as colunas, santuários, etc. E por último entrava a decoração das igrejas.

Ou seja, as igrejas eram literalmente esculpidas do chão para baixo (e não construídas do chão para cima, como qualquer outra edificação); e eram feitas dessa forma para que não fossem avistadas pelos inimigos que vinham de longe. E realmente funcionou, já que só é possível avistá-las assim que se chega muito perto.
 

A Etiópia tem uma das mais antigas tradições cristãs, Lalibela se tornou um lugar sagrado aos cristãos etíopes e essas igrejas nunca deixaram de ser usadas por eles. Até hoje é comum ver peregrinações ao local e rituais sendo praticados ali, as igrejas se enchem de fiéis todos os dias:

 

 

Roteiro:

Dia 1 - Logo pela manhã, um motorista me pegou no meu hotel em Addis Ababa (capital da Etiópia) e me deixou no aeroporto, onde peguei um voo para Lalibela (Ethiopian Airlines). Chegando lá, um outro motorista me levou ao meu hotel (chamado Mountain View, muito bom). Almocei, arrumei as minhas coisas e depois do almoço o motorista e o guia me pegaram no hotel para ir conhecer a primeira parte do complexo de igrejas.

Dia 2 - Conheci, junto com o guia, o restante do complexo de igrejas de Lalibela.

 

 

 

 

AXUM

 Foto retirada de www.endlessethiopiatours.com

 

Axum foi a capital do antigo Império que levava o mesmo nome, e por isso está repleta de história. O reino de Axum foi um dos mais poderosos da África, e hoje é um dos mais conhecidos historicamente. Suas ruínas são patrimônio da UNESCO.

Mas Axum é somente isso: história e mais história. Passei um dia na cidade e foi mais do que suficiente; cheguei pela manhã, o guia me explicou todas as ruínas e a parte histórica da cidade e depois de algumas horas já estava partindo novamente.

 

Roteiro:

Dia 3 - De manhã um motorista me pegou no hotel em Lalibela e me levou ao aeroporto, de onde peguei um voo para Axum (Ethiopian Airlines). Chegando em Axum, fiz um city tour e no fim da tarde o mesmo motorista me buscou novamente e pegamos estrada para Hawzien, onde cheguei a noite. 

 

 

 

 

TIGRAY CHURCHES

 

Como Lalibela, as igrejas de Tigray também foram feitas de uma forma para que ficassem escondidas dos inimigos na época. Mas essas não foram talhadas do chão, e sim construída em cima de montanhas inabitadas.

As igrejas de Tigray me surpreenderam muito positivamente, pois não estava esperando que fossem tudo o que são. São igrejinhas pequenas, mas muito impressionantes ao mesmo tempo: para chegar em cada uma delas, é preciso subir montanhas e escalar paredes, os trajetos levam horas e são bem cansativos mas a vista é de tirar o fôlego e chegar lá em cima para ver o que foi feito compensa cada passo. Eu estive somente um dia na região e subi duas montanhas, para conhecer três igrejas:

 

Abuna Yemata Guh

 

Abuna Yemata Guh é a mais conhecida de todas. A subida leva em torno de 1:30h e passa por um paredão vertical que deve ser escalado na manha mesmo (até tem corda, mas não dá pra confiar muito nela não, muito menos na árvore magrinha em que eles a penduram). Mesmo depois de chegar no topo, a adrenalina continua; a última etapa é um corredorzinho de 15m de comprimento por mais ou menos 1,5m de largura - isso mesmo, 1,5m de largura e olhando pro lado você vê um enorme precipício, não é uma boa atividade para os que têm medo de altura - , que te leva a caverna final, onde foi feita a igreja.

 

 

Maryam Korkor & Daniel Korkor

Maryam Korkor e Daniel Korkor são outras duas igrejas que ficam no topo de outra montanha. Nesse caso não é preciso escalar parede nenhuma, mas a subida é muito mais difícil e íngreme que a primeira, e a vista consegue ser ainda mais bonita.

A subida dura cerca de 2:30h, com algumas partes precisando de um grande esforço físico. Na primeira meia hora de caminhada eu já estava exausta e precisando descansar de 10 em 10 minutos, isso foi quando eu vi um casal de senhorzinhos etíopes descendo super na boa, com um galão de água sagrada nas costas de cada um; falamos com eles e eles disseram que fazem essa subida todo dia. A partir disso tomei vergonha na cara e continuei a trilha sem reclamar.

Chegando ao topo, a primeira igreja que se vê é Maryam Korkor, que me lembrou um pouco aquele templo famoso do Butão, nas pedras.

 

Uma caminhadinha de três minutos para trás de Maryam, você encontra Daniel Korkor, que é uma portinha minúscula no meio da pedra enorme. A igreja no interior é só uma salinha pequena com algumas pinturas na parede:

 

Em ambas as igrejas (e em todas as outras da região) pessoas sobem diariamente para rezar, tem gente até que leva seus bebês recém-nascidos para serem batizados. Não são apenas lugares turísticos - aliás o turismo está em segundo plano nesse caso - as igrejas são realmente utilizadas como igrejas apesar de toda a dificuldade para se chegar até elas. Os religiosos etíopes acreditam que, quanto mais alta a igreja, mais perto se está do céu e, consequentemente, de Deus.

 

Roteiro:

Dia 4 - Acordei em Hawzien. Pela manhã o motorista e um guia me pegaram no hotel e me levaram para conhecer as igrejas de Tigray. Primeiro fomos à Abuna Yemata Guh, e depois a Maryam Korkor, as duas me surpreenderam muito positivamente. No final da tarde o motorista me levou a Mekele.

 

 

 

 

DANAKIL DEPRESSION

Danakil Depression é um dos locais mais impressionantes que eu já tive o prazer de conhecer. A região está situada no extremo norte da Etiópia e, por conta da proximidade com a fronteira da Eritreia, é considerada uma região de risco, sendo obrigatório o acompanhamento de escolta armada praticamente o tempo inteiro. 

É impossível conhecer o local por conta própria, é necessário contratar uma agência. O tour pode ser feito em 3 ou 4 dias, custa cerca de U$100 por dia (incluindo todos os transportes, comida e acomodações) e passa por Erta Ale, Dallol e o Deserto de Sal - em ambos os tours exatamente os mesmos lugares são visitados, o que muda é que no tour de 4 dias você terá mais tempo para descansar, o que não vale a pena pois o preço é maior.

É importante ressaltar que o passeio é do tipo luxo 0 (talvez nem 0, uns -10). Na maioria dos locais não tem banheiro e é preciso fazer as necessidades na natureza mesmo, banho é luxo, água quente é impensável e as noites são passadas em locais muito simples. Se a estrutura turística das grandes cidades da Etiópia já é bem ruim, imagina onde nem cidade tem - só umas vilinhas. Mas vale cada segundo porque o passeio é absolutamente maravilhoso e você passará por lugares que ninguém nem imagina que existam.

 

 

Erta Ale

 

O Erta Ale é um vulcão que tem um dos quatro únicos lagos de lava no mundo, e o único em permanente atividade. Para chegar lá em cima não é nada fácil. A viagem começa logo cedo em Mekele, depois de muitas horas dentro do carro, passando por lugares sem nem estrada, chegamos ao acampamento oficial do Erta Ale. Nesse acampamento é onde ficam os soldados do exército, que te acompanharão durante toda a subida; uma escolta armada acompanha o grupo e os soldados ficam espalhados pela trilha.

 

 Jantamos no acampamento e começamos a subida por volta das 20h (subimos a noite por dois motivos principais: 1.O calor durante o dia é insuportável, podendo chegar a 50 graus 2. O escuro é melhor para ver o lago de lava). Logo no começo da caminhada, que tem cerca de 10km e dura 3:30h, já dá pra ver de longe o clarão vermelho do lago de lava vindo do topo do vulcão. A subida é relativamente fácil, mas muito longa; é feita sobre pedras vulcânicas e não é muito íngreme.
Chegamos lá em cima e o que vemos é absolutamente impressionante. Uma cratera de cerca de 70m, muita fumaça e lava. Literalmente lava, coisa que eu nunca achei que veria fora da TV. Podemos chegar muito perto da cratera, o suficiente para não poder arriscar nenhum passo em falso, e o cheiro é bem forte - sugiro levar uma camiseta e molhá-la um pouco com água para colocar no nariz e conseguir respirar melhor.

 

 

Depois do espetáculo que foi ver um lago de lava ao vivo, andamos por mais cerca de 10 minutos e chegamos ao local onde dormimos. Finos colchões e sacos de dormir são colocados ao chão e você dorme assim mesmo, ao ar livre. Basta abrir os olhos para ver um céu cheio de estrelas e galáxias.

Dormimos só umas 3h, para acordar enquanto ainda está escuro e começar a descida, o dia vai amanhecendo durante a caminhada e começamos a ver a trilha por onde passamos no dia anterior.

 

 Dicas para subir o Erta Ale: - Leve o mínimo possível para a subida: uma mochila leve com câmera, escova de dente, água e uns snacks, deixe o resto no carro.

- Leve uma head lamp, é imprescindível. 

- Leve também alguns band-aids, pois provavelmente seus pés amanhecerão inteiro machucados.

- A subida dá bastante medo por conta do exército, uma semana antes de eu ir um turista alemão foi assassinado lá, ninguém nem comenta como ou por quem. Mas não é tudo isso que falam. Turistas sobem todos as noites e esse caso do alemão foi o único em anos, então vai tranquilo.

- Vá com sapatos bons para subida, de preferência com botas de sola grossa. O chão é lava solidificada então é bem ruim para pisar.

- A parte mais difícil é a volta, por conta do cansaço e do tempo de caminhada.

- Não é nem um pouco fácil. Dá medo. Dá vontade de desistir e exige bastante de cada um - meus pés ficaram em carne viva e minhas pernas tremendo. São 10km ida + 10km de volta, escoltado pelo exército, no breu. Mas vale tanto a pena que, quando se chega lá em cima, você nem lembra mais das dificuldades.

 

Dallol

Dallol é conhecido como 'O lugar mais cruel da terra', e não é difícil de entender essa denominação quando se está lá: a região está situada a 120m abaixo do nível do mar, é literalmente uma das mais quentes do mundo e a concentração de enxofre faz ficar bem difícil de se respirar por lá. É completamente inóspito. Mas quando se chega lá você nem lembra disso tudo, de tão diferente que é.

Dallol fica localizado no meio do deserto de sal da Etiópia, são uns mini lagos que contêm uma mistura de vários minerais e diferentes elementos que resultam num ambiente que parece literalmente de outro planeta. É inteiro colorido, com um líquido extremamente ácido e borbulhante, o chão de sal é oco e quebradiço. Não sei nem como explicar o que é o local, fotos explicam melhor:

 

 

 

 

Dallol fica no meio do Deserto de Sal e chegamos bem perto dele de carro, depois basta subir uma pequena montanha por cerca de 10 minutos para chegar no local.

 

Deserto de Sal

Depois de conhecer Dallol, vamos explorar o deserto de sal do qual ele faz parte. Além das diferentes formações rochosas e lagos de sal, também vimos caravanas de camelos e trabalhadores extraindo o sal.

 

 

Roteiro:

Dia 5 - O motorista me buscou pela manhã e me levou a agência da ETT em Mekele, de lá sairiam todos os grupos para o Danakil Depression Tour que estava começando. Fomos em um 4x4 eu e mais um casal de israelenses, de quem fiquei bem amiga. Junto com nós, havia cerca de mais uns 6 carros, todos fazendo o mesmo roteiro, o que foi legal pois formamos um grupo grande e fizemos novas amizades.

No primeiro dia dirigimos bastante tempo, quase o dia inteiro. Depois de algumas horas no asfalto, também dirigimos por um tempão por areia e lava vulcânica solidificada, indo em direção ao acampamento base para subir o Erta Ale.

Chegamos ao acampamento, jantamos e as 20h começamos a subida, que durou cerca de 3:30h. Após ver o lago de lava, dormimos lá em cima.

Dia 6 - Depois de apenas 3h dormindo, acordamos em cima do Erta Ale e começamos a descida, ainda no escuro. A descida foi bem difícil. Não pela trilha em si, que é tranquila, mas pelo cansaço do dia anterior + o pouco tempo de sono + os pés cheios de bolha. Chegamos ao acampamento e estávamos todos absolutamente exaustos, sujos e com fome. Tomamos café da manhã, entramos nos carros e partimos. No caminho para a próxima cidade paramos para almoçar e depois também paramos em um lago de sal para dar uma refrescada e ficar boiando um pouquinho. Ao lado do lago havia umas fontes termais de água doce onde eu e mais algumas pessoas tomamos banho. A maioria do grupo deixou pra tomar banho a noite e se ferrou pois no lugar onde dormimos estava sem água, então aproveite qualquer chance que você tiver para tomar um banho nesse tour.

Chegamos a noite numa cidade bem simples e ficamos em um guesthouse também muito simples. Banheiro era um buraco no chão, não tinha água e todos dormiram em colchões jogados no chão de um mesmo quarto. Saímos para dar uma volta na cidadezinha antes de escurecer e nos supreendemos com várias crianças que nos rodearam e ficaram pegando nas nossas mãos, tentando conversar, pedindo pra tirar fotos e nos abraçando, foi engraçado.

 

 Dia 7 - No terceiro e último dia do tour pelo Danakil Depression acordamos bem cedinho e partimos para conhecer o deserto de sal da Etiópia. A primeira parada foi em Dallol, um dos lugares mais naturalmente diferentes que já fui; depois demos uma volta por algumas formações naturais do salar e vimos as caravanas de camelos que passam diariamente pela região transportando sal e os trabalhadores da região que passam o dia no calor extraindo o sal.

O resto do dia foi destinado a voltar para Mekele, de onde pegamos o voo para Addis Ababa a noite.
 

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